Voltar ao blog ARTIGO · DIREITO DIGITAL · COPA 2026

Surfar na Copa do Mundo pode derrubar a sua conta

Todo mundo lembra do processo judicial. Quase ninguém lembra do risco que chega primeiro, é mais rápido e dói mais no caixa: perder o perfil, o anúncio ou a conta inteira.

POR DR. LUCAS S. ZULIANI OAB/SP 472.153 14 JUN 2026 LEITURA · 6 MIN
#Copa2026
conteúdo removido
alcance em queda

A Copa do Mundo movimenta muito mais do que futebol. Movimenta venda, conteúdo, campanha, sorteio, bar lotado e e-commerce em ritmo de final. Quando o torneio se aproxima, marcas, lojas, restaurantes e criadores correm para “entrar no clima”. O problema é que existe uma linha fina entre duas coisas que parecem iguais, mas não são:

LIVRE

Comentar a Copa do Mundo é uma coisa.

A primeira é livre.

O QUE A FIFA REALMENTE PROTEGE

O que a FIFA realmente protege

As Diretrizes de Propriedade Intelectual da FIFA para a Copa do Mundo de 2026 são diretas: a entidade detém direitos sobre um conjunto de ativos do torneio, como emblema, nome, títulos, slogan, troféu, identidade visual, fonte oficial, logos das cidades-sede e mascotes. A FIFA já revelou, inclusive, os três mascotes oficiais da edição de 2026: Maple, Zayu e Clutch, ligados a Canadá, México e Estados Unidos.

Emblema
Nome e títulos
Slogan
Troféu
Identidade visual
Fonte oficial
Logos das sedes
Mascotes
Maple · Canadá Zayu · México Clutch · Estados Unidos

A regra é simples: só patrocinadores, licenciados e parceiros oficiais podem usar esses elementos com finalidade comercial. Eles pagam, e pagam caro, exatamente pela exclusividade dessa associação. Quando uma empresa que não é patrocinadora usa símbolos, nomes ou artes oficiais para vender, ela está pegando carona em algo que não comprou. O nome técnico disso é marketing de emboscada.

A ZONA SEGURA

A zona segura: fale de futebol, não da marca

O uso mais tranquilo é aquele que celebra o clima do futebol sem copiar a identidade oficial e sem sugerir vínculo com a FIFA. A própria FIFA recomenda imagens e termos genéricos de futebol ou dos países.

Exemplos que correm pouco risco:

Um restaurante: “Nos dias de jogo, tem telão e cardápio especial para a torcida.”

Uma loja: “Looks verde e amarelo para acompanhar os jogos.”

Um criador: vídeo comentando escalação, favoritos e expectativa para as partidas.

Um perfil jurídico, jornalístico ou educativo: análises, regras, impacto econômico, direitos de transmissão.

Tudo isso usa o contexto esportivo sem se apropriar da marca do evento.

A ZONA DE RISCO

A zona de risco: quando vira uso comercial da marca

O perigo aparece quando o elemento oficial entra para vender:

Camisetas com o emblema, o troféu ou os mascotes, sem licença.

Anúncio pago com a frase “Promoção oficial da Copa do Mundo 2026” e o logotipo do torneio ao lado da sua marca.

Sorteios do tipo “compre acima de R$ 200 e concorra a ingressos da Copa”. Promoções com ingressos sem autorização são expressamente vedadas.

Bar ou restaurante que estampa o emblema oficial na fachada, no cardápio e nas artes, como se fosse ponto oficial do torneio.

A diferença é de percepção: “venha assistir aos jogos da seleção” é tema. “Combo oficial Copa do Mundo 2026” com o troféu é associação comercial indevida. O consumidor passa a achar que existe parceria, patrocínio ou autorização, e é justamente isso que as diretrizes proíbem.

POR QUE NAS REDES O RISCO É MAIOR

Por que nas redes sociais o risco é maior

Aqui está o ponto que a maioria ignora, e é o que mais derruba contas.

Nas redes, o conteúdo circula rápido, é impulsionado, alcança milhares de pessoas e pode ser denunciado pelo titular dos direitos em segundos. As próprias diretrizes da FIFA tratam disso:

Torcedor x empresa. O torcedor pode postar e compartilhar conteúdo oficial sem fins comerciais. A empresa que reposta o mesmo conteúdo para vender, atrair clientes ou turbinar campanha está em outro patamar, e esse uso é reservado aos detentores de direitos.

Hashtags. Hashtag oficial no perfil pessoal de um torcedor é uma coisa. A mesma hashtag usada por um perfil comercial para puxar venda cria associação com o torneio e fica restrita à FIFA e a seus parceiros.

E há uma segunda camada de risco, que não vem da FIFA, mas da plataforma. Os padrões de publicidade da Meta não permitem anúncios que violem direitos de propriedade intelectual de terceiros, e a empresa remove perfis e contas que reincidem nessas violações. (Confirme o link das políticas vigentes da Meta antes de publicar.)

Traduzindo para o que importa ao seu negócio: um único post pensado para “pegar o embalo” da Copa pode resultar em remoção do conteúdo, reprovação do anúncio, restrição da conta de anúncios, suspensão temporária e, em caso de reincidência, desativação do perfil. Para quem vive de alcance, isso é mais grave e mais imediato do que qualquer notificação extrajudicial.

01Remoção do conteúdo
02Reprovação do anúncio
03Restrição da conta de anúncios
04Suspensão temporária
05Desativação do perfil
O MITO DO ESCUDO

“Mas a FIFA publicou uma cartilha de uso…”

Sim, e ela não te protege como você imagina.

A própria FIFA afirma, no documento, que as diretrizes são apenas informativas, não confirmam se determinada atividade infringe ou não os direitos, e que tentativas anteriores de usá-las como linha de defesa não tiveram sucesso. Ou seja: seguir a cartilha por conta própria não é um escudo. A análise sempre considera o contexto: quem publicou, com qual finalidade, se havia venda, se o post foi impulsionado, se o público poderia entender que existia relação oficial.

No Brasil, essa discussão envolve a Lei da Propriedade Industrial (Lei nº 9.279/1996) e a Lei de Direitos Autorais (Lei nº 9.610/1998), além das regras de concorrência desleal.

Lei nº 9.279/1996 · Propriedade Industrial Lei nº 9.610/1998 · Direitos Autorais Concorrência desleal
O RESUMO PRÁTICO

O resumo prático

A Copa pode ser comentada, celebrada e acompanhada por todos. Empresas, criadores, bares, lojas e profissionais podem produzir conteúdo sobre futebol, torcida e seleção à vontade.

O limite é não transformar a celebração em uso indevido de marca. Na prática:

NA PRÁTICA

Use linguagem e imagens genéricas de futebol.

Evite logotipos, troféu, mascotes, slogan e fonte oficial.

Não anuncie nada como “oficial” sem licença.

Não faça sorteio com ingressos sem autorização.

Redobre o cuidado com anúncios pagos e hashtags usadas para vender.

Em grandes eventos, pegar o assunto do momento é ótima estratégia de comunicação. Mas, quando o tema é uma marca forte e protegida, criatividade precisa andar junto com cautela jurídica: antes de o post ir ao ar, não depois de a conta cair.

Este conteúdo tem caráter informativo e não constitui parecer ou orientação jurídica para um caso concreto. Se a sua conta ou campanha foi restringida, suspensa ou removida, procure orientação especializada.

Falar com um advogado Conta restrita, suspensa ou removida? Análise individual de cada caso · OAB/SP 472.153